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Por que a engenharia no Brasil é assim?

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A origem de tudo…

Muitas vezes eu me pergunto o porquê da engenharia no Brasil não dar tão certo se afirmam que a engenharia aquece com o desenvolvimento e dizem por aí que em pouco tempo seremos a terceira maior economia do mundo. Então, conversando com professores, colegas de trabalho, profissionais e lendo notícias cheguei ao entendimento que vou expor no texto. Como disse, sou da área de engenharia, não sou sociólogo, posso estar errado, mas quero compartilhar como entendi isso. O que acho que evoluiu bastante desde que eu comecei a me fazer esta pergunta.

Não é preciso mais de uma frase para concordamos com a seguinte afirmação: No Brasil, a política precede à razão. E nós, infelizmente, escolhemos a segunda prioridade dessa frase. Portanto, será muito natural se ao longo da colheita de nossos frutos da engenharia, nos sentirmos frustrados por termos feito a escolha errada. Vamos entender melhor isso tudo…

Quando escrevi o primeiro texto – Entendendo a falácia da  falta de engenheiros no mercado – já esperava que alguns colegas da engenharia civil me desmentissem e contassem que na verdade, a engenharia está bombando. A engenharia civil, como diz um amigo da área, foi a mãe das engenharias. Na verdade, inicialmente existiam dois ramos somente: a engenharia militar, para aplicações bélicas naturalmente, e para outras aplicações, a engenharia civil. Dentro desta se englobavam todas as áreas não militares. Com o passar do tempo a civil foi se ramificando tanto que foi necessário especificar outros termos mais específicos como mecânica, elétrica e etc. A engenharia de construção, por ter sido a mãe de todas as outras, herdou sua denominação primordial. Assim, hoje temos o termo engenharia civil como sinônimo de construção. Portanto, tenho o maior respeito e consideração pela área, e até pretendo cursá-la no futuro por admiração. E assim, peço aos meus futuros colegas de curso que entendam a afirmação/constatação que farei a seguir, sem preconceito: A engenharia civil, no Brasil atual, não depende de desenvolvimento de tecnologia.

Isso influencia e muito no porquê desta ser a única engenharia que dá certo nos nossos solos. A nossa engenharia civil não sofre concorrência porque nossos governantes não a permitem. Existem dois motivos para o sucesso dessa engenharia aqui: O primeiro já foi falado, a falta de tecnologia. O segundo motivo, é o fato da sua forma de execução e isso, também decorre da falta de desenvolvimento tecnológico.

Fica uma ressalva para a área de petróleo e gás, pois é uma herança de um investimento antigo de Vargas.  Ou seja, não é preciso investir durante o período sem retorno, pois hoje a Petrobras já dá lucro. Assim, ela pode investir em pesquisa visando aumentar os rendimentos. Sem contar o fato de ser capital misto, o que não permite interferência direta da baixa política. Pelo menos é o que se tem tentando fazer lá dentro, apesar de algumas matérias recentes acusando a interferência partidária  nos rumos da companhia.

A engenharia quaternária

A engenharia da computação, por exemplo, se quiser fazer diferença no mercado precisará desenvolver chips novos, ou inovar em tecnologia dos semicondutores, talvez até comece pesquisas em computação quântica. Quanto tempo isso dura? Coloque aí uns 10 anos para ter a primeira patente gerando lucro. Mais 5 desenvolvendo o produto, para depois criar as empresas de venda de tais produtos. Enfim, 15 anos para começar a ser rentável. Lembra sobre a política e a razão? Pois é… um político eleito, nunca poderá inaugurar a fábrica de superprocessadores nacionais a tempo de se reeleger. Quinze anos é muita coisa, além do investimento em educação e qualificação ser necessário e nem precisar tanto de investimento pesado inicial, o que também não agrada nossos representantes do povo.

A função da engenharia é criar soluções praticáveis baseadas no conhecimentos das ciências, aplicá-las, é consequência. Não que não seja importante aplicá-las, senão seria pesquisa pura, teórica; mas a função principal da engenharia é solucionar coisas que até o momento não tinham respostas. O físico estuda toda a natureza, entende as leis de Newton, entende a relação entre polias e etc. Sendo que ele usou das equações que são estudadas pelos matemáticos. O engenheiro, estuda um pouco de física, um pouco de matemática, estuda como montar engrenagens, qual motor usar e então resolve os problemas da sociedade. Seja otimizando a produção de petróleo ou garantindo a qualidade das bebidas em uma cervejaria.

A base de qualquer tecnologia é a inovação, é a corrida. Tanto é, que os maiores desenvolvimentos científicos ocorrem durante as corridas espaciais, as guerras, quando a tecnologia significa a diferença entre a vida e a morte.

No Brasil, a engenharia tem 4 características interessantíssimas para um candidato, veja bem… No tempo de mandato de um governador, por exemplo, 4 anos, a engenharia civil não ficará obsoleta pela tecnologia. Portanto, é só aplicar o que já se conhece, não precisa investimento de longo prazo. Qualquer obra pode ser realizada em 4 anos. Pelo menos é o como acontece no Brasil, vez ou outra um buraco de metrô ou prédio desaba, mas no geral 4 anos é suficiente para inaugurar, pelo menos é o que vemos nos jornais. Ainda tem outro fator, segundo a ISO 9001, o desvio de verba pública não pode ultrapassar 50% do investimento. Como qualquer retoque em um estádio custa cifras de bilhões de reais, a taxa de retorno imediato do “investimento” para um político mal-intencionado é muito mais atrativo que descobrir a cura com células tronco. A pesquisa de ponta em tecnologia precisa de um capital inicial baixo para só no meio investir pesado. Nada que seja possível fazer em 4 anos. E no final, o resultado é bastante evidente quando se tem uma nova ponte e algumas fotos já mostram as realizações feitas. Assim, olha bem o que a engenharia civil pode oferecer ao mau político: alto desvio de dinheiro, curto prazo, baixo risco, impacto visual e ainda uma reeleição. Ou você acha que o que faz os maus candidatos mendigarem seus votos são os salários que recebem? Por que temos tantos empresários se candidatando para receberem menos que um gerente de suas próprias empresas? Porque o desvio com um obra pública rende 10 vezes mais o que ele ganha em 1 ano com a empresa. Os altos salários que eles tem é apenas porque eles se sentiram na obrigação de roubar um pouco mais já que a população insistia em não fazer nada mesmo… as pessoas iriam até falar que eles não trabalham se não criassem essas leis aumento os próprios salários. Mas vamos parar de falar de política porque esse não foi o propósito do texto. Porém, foi necessário explicar este ponto: o interessante para um corrupto é desviar a imensidão de dinheiro arrecadada. Mas como se arrecada mesmo? Ahh claro… impostos.

Quanto mais imposto…. mais desvio. Sempre seguindo a ISO 9001!

Nos comentários do texto anterior, citaram algo que eu esqueci de abordar: O custo de manter uma empresa no país. Temos algumas curiosidades aqui, como por exemplo: a empresa deve pagar o INSS, para o funcionário ter direito ao atendimento médico, mas precisa pagar um plano de saúde também, para o funcionário ter atendimento médico. O empresário, possui um carro, e portanto, paga o IPVA para ser usado para manutenção das vias, mas também tem que pagar o vale-transporte do funcionário, porque a passagem é cara, pois o funcionário paga a barca porque não pode usar a ponte engarrafada e tem que chegar cedo. A empresa paga a previdência social, mas também contribui com uma porcentagem para pagar a previdência, mas privada. A empresa paga imposto para a polícia defender seus bens, mas precisa pagar uma empresa de segurança para defender, os seus bens.

No Brasil, se gasta 4 meses do ano para resolver toda a papelada de recolhimento de imposto. Nos outros países, a média é de uma semana. No Brasil, a energia elétrica custa o dobro do valor de outros países. No Brasil, todo o transporte, de pessoas e carga, é realizado por rodovias. Em todo mundo não se usa essa alternativa porque sabe-se que é mais cara. Pelas rodovias se gasta muito com 2 itens: a primeira é a manutenção automotiva, e a segunda, curiosamente estimula a primeira, a manutenção das rodovias. Elas custam caro porque são obras, mas lembre que as licitações suspeitas resultam na engenharia civi… ahh deixa para lá.

Portanto, o gasto duplicado dos serviços básicos – imposto e uso de uma empresa privada – é outro fato que dificulta que aquele motor usado na indústria, seja desenvolvido aqui em solo nacional, por engenheiros mecânicos, elétricos e químicos brasileiros. Por um preço mais barato e bem mais adaptado às nossas necessidades.

Fazer aqui demora mais que trazer de lá…

Para construir uma fábrica aqui o primeiro item é infra-estrutura e aqui que o brasil peca e muito. Nossa energia é cara, nossa logística é sofrível pois é baseada em rodovias, os impostos e os custos secundários com a mão-de-obra( transporte, alimentação e etc…) são caríssimos pela própria realidade de preços surreais do país e por final, a política não é lá muito estratégica e bem estruturada. Não é incomum a prevalência de apadrinhamentos políticos em vez de redução de custos ou inteligência estratégica quando as iniciativas tem qualquer distante relação com a mão do governo. Sem contar por toda burocracia de prestação de contas das empresas, atrasos no trâmite de documentos e etc. Outro ponto que também conta é a vantagem da aglomeração industrial, ou desvantagem, se pensarmos dentro daqui. Se não há uma boa indústria de parafusos porque preferiram construir mais uma rodovia, como vou instalar uma fábrica de motores? E sem motores, como farei automóveis? Por isso temos montadoras de automóveis e não fábricas. Para fechar com chave de ouro, importação aqui é taxado em quase 60% de imposto, mesmo em produtos sem equivalência nacional. Sendo assim, e ainda lembrando que não é possível fundar empresas e gerar lucro em 4 anos e ainda que o imposto é pago à vista, fica fácil perceber porque importar é a melhor opção e a mais famosa escolha tomada. Assim, paga-se imposto para forçar a empresa a se nacionalizar, mas impede-se sua nacionalização por todas as outras frentes de atuação. No final, nós pagamos 5 vezes o valor pelos produtos sem nenhuma perspectiva de mudar isso.

Por que nãos somos todos engenheiros civis então?

O Banco Mundial foi criado para ajudar os países a se recuperarem após a Segunda Guerra. Ao longo do tempo ele se converteu em um banco para financiamento de projetos de desenvolvimento em países mais pobres. Esta instituição tem suas regras para emprestar esse dinheiro, avaliando se o país que recebe esse financiamento será capaz de honrar com suas dívidas. Nada muito diferente que mostrar seu contra-cheque quando se quer financiar um carro. Pois bem, o Brasil pegou dinheiro emprestado com o Banco Mundial e portanto, tem metas a cumprir. Inclusive para poder pegar mais dinheiro.

O Banco Mundial e a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) fazem parte da ONU. Por outro lado, a UNESCO trabalha em parceira com a OCDE( Organização para Cooperação Desenvolvimento Econômico). Vale chamar a atenção que não estou visualizando e nem pretendendo criar nenhuma teoria da conspiração aqui. Só estou me baseando no fato da cadeia de interesses que movem o mundo e vendo uma linha de interesses coerente e que justifica a situação atual do mercado. O secretário de transportes nem faz ideia do que é UNESCO. Mas vai fazer as estradas quando souber que tem mais engenheiros civis no mercado. O ministro da educação nem sabe quem é esse secretário, mas facilitou a vida dele abrindo vagas na engenharia porque acatou à exigência do presidente, que foi aconselhado pelo ministro das relações exteriores. Que por sua vez analisou a ideia com o ministro da fazenda que queria mais dinheiro. No final da história o mercado fica bom para este ramo da engenharia. Enfim… é uma cadeia grande e complexa, mas que possibilita um país ir para frente, não conseguir sair do lugar e até ir para trás.

A OCDE é uma reunião de 34 países, sendo que 31 deles são desenvolvidos e produzem juntos mais que 50% da riqueza do mundo. A ideia é basicamente a seguinte: Sendo eles desenvolvidos, eles se reúnem e aconselham os sub-desenvolvidos a escolherem as políticas corretas para se desenvolverem. Eles fazem relatórios sobre estes países, análises, dão conselhos e etc. Aqui no Brasil, esses dados relativos à formação de engenheiros, para análise, são fornecidos pelo INEP( Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais). De fato, é necessário que os países tenham como gerar riquezas para pagarem a dívida contraída.  A ideia é bem legal, independente da onipresente dúvida se eles realmente querem dividir esses 50% da produção de riqueza mundial com todos os homo sapiens vivos, ou se querem ensinar apenas o mínimo necessário, ou ainda se é interessante uma dívida eterna que possa ser usada para dissuasão econômica, que sempre vai ser questionada por alguém. Mas sempre vai ter cético, sempre vai ter crente, vamos continuar no foco da engenharia. O que quero chamar a atenção é a um trecho de um documento da OCDE:

“The imperative for countries is to raise higher-level employment skills, to sustain a globally competitive research base and to improve knowledge dissemination to the benefit of society” (OCDE, 2008a, p. 4).

Em livre tradução:

O necessário aos países é aumentar a qualificação profissional de nível superior, para sustentar uma base de pesquisa globalmente competitiva e melhorar a disseminação do conhecimento em benefício da sociedade

E qualificação profissional de nível superior significa tecnologia, que diferente daqui do nosso país, lá fora está muito presente na engenharia civil também. Por exemplo, cada vez mais se usa estruturas prontas em vez colocar tijolo por tijolo, com cimento e areia. Prédios que aqui se levanta em 1 ano e meio, lá fora ficam prontos em 1 mês. Mas além da civil, existem outras engenharias importantíssimas como indicativos de alta qualificação tecnológica, não por acaso são a computação, eletrônica, química, automação, nanotecnologia, nuclear, biotecnologia e etc. Portanto, a OCDE sabe que um país  só com engenheiros civis não é indicativo de evolução tecnológica.

Ou seja, o governo está fazendo sua parte. Se eles querem número de profissionais qualificados para nos dar empréstimos, nossos políticos estão gerando esses números. Pouco importa se estes profissionais estarão empregados ou não. Nossas digníssimas excelências estão lotando os cursos de engenharia, arrecadando mais dinheiro, mas mantendo o mesmo custo( número de professores e infra-estrutura). Vez ou outra pinta uma greve nas universidades federais, mas é detalhe. Professores em salas superlotadas estão reclamando de barriga cheia, é claro. Assim, a oferta nas universidades- e o marketing midiático para preencherem essas vagas –  não segue a lógica  de necessidade do mercado. Ela segue outra prioridade, que não é a razão; imagino que a essa altura do campeonato você já deve saber qual é. Se não, volta lá no início do texto. De qualquer forma…

“O Brasil precisa de engenheiros.. em todas as áreas! Engenharia química, de produção, elétrica, mecânica, automação, têxtil, de alimentos, metalúrgica e etc… Vagas a partir de R$ 18.000,00!”

Texto de autoria de Luciano Netto de Lima
Formando de Engenharia de Controle e Automação no CEFET/RJ
Originalmente postado em:
http://exatasmentes.wordpress.com/2013/09/10/por-que-a-engenharia-no-brasil-e-assim/

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