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Por Juliana Ewers

A máxima de que há um “apagão de mão de obra” na engenharia em relação à demanda supostamente crescente nos próximos anos não se sustenta, de acordo com as expectativas para o setor apresentadas hoje no seminário “Formação e Emprego de Engenheiros no Brasil: Tendências Atuais”, realizado pelo DPCT (Departamento de Política Científica e Tecnológica) e pelo PPG-PCT (Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Estudo realizado em 2010 pelo professor Sérgio Queiroz, que é doutor em economia, já apontava para o fato de o Brasil chegar em 2020 formando algo em torno de 80 mil a 107 mil engenheiros – à época, a pesquisa considerou variações de cenários, sendo o mais pessimista de 3% de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e o mais otimista, de 6% – para uma demanda calculada, na melhor das hipóteses, de 60 mil novos postos de trabalho registrados, efetivamente, como engenheiros.

A atualização quanto ao número de formados apresentada hoje indica uma discrepância ainda maior nessa relação. Mantida a perspectiva de 60 mil vagas em 2020, o número de engenheiros que entrará no mercado saltou para 148 mil – 2,46 vezes mais do que será possível absorver.

Para o professor Renato Pedrosa, Ph.D. em Matemática e responsável pela nova pesquisa, esse aumento de formados se deve à contínua e crescente participação da rede privada, percebida principalmente depois de 2005, quando o número de ingressos nesse tipo de instituição de ensino superior ultrapassou as universidades públicas.

Em 2012, eram 713.558 estudantes nos cursos de engenharia no Brasil. Deste total, 267.512 haviam ingressado naquele mesmo ano, estando 78,5% matriculados em faculdades particulares. Ainda em 2012, 54.042 universitários concluíram a graduação – 61,9% em instituições privadas e 38,1%, em públicas. Os números da pesquisa indicam que, em 2017, 72% dos graduados – 106 mil – virão do ensino privado.

“Em termos quantitativos, não há sinais de apagão de engenheiros, como costuma-se falar. O que podemos questionar é se há escassez de engenheiros qualificados, bem-formados. É óbvio que existem excelentes faculdades particulares, que formam ótimos profissionais, profissionais bastante preparados. No entanto, temos aquelas instituições que só visam os fins lucrativos e acabam despejando uma grande quantidade de profissionais que não são suficientemente preparados”, analisou Pedrosa.

Quanto à qualidade do ensino, ao verificar o conceito Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) foi observado que as notas dos alunos das universidades públicas concentram-se entre 4 e 5. Já os estudantes das instituições privadas alcançaram, em sua maioria, notas 2 e 3.

“Estamos voltando àquela história do engenheiro que virou suco”, recordou Queiroz a história do engenheiro Odil Garcez Filho que abriu uma lanchonete na avenida Paulista com este nome e virou símbolo da recessão econômica na década de 1980. “A demanda para engenheiro é baixa frente ao volume de pessoas que estão se formando”, completou.

Em 2012, os cursos de engenharia com maior número de concluintes foram Produção, Civil e Construção, Eletricidade e Energia, Metalurgia e Mecânica, e Eletrônica. Em 2017, do total de graduados, 84.112 serão apenas de engenharia Civil, a especialidade que mais terá formados.

“O curso de engenharia está virando, se é que ainda não virou, como os de administração e direito. Antes, muitas pessoas iniciavam essas graduações apenas para ter um diploma. O que não podemos esquecer é que estudar engenharia é caro, muito caro. E, com o ProUni e Fies, temos dinheiro público sendo aplicado em formações, cujos profissionais não terão mercado suficiente”, afirmou Pedrosa.

A dificuldade para entrar no mercado passa também pela questão de não se conseguir cargos como engenheiro. Muitos profissionais acabam desempenhando funções técnicas ou de nível médio, mesmo depois de formados. “Não seria melhor então formar bons técnicos do que formar engenheiros para serem técnicos? É preciso que haja uma reestruturação da educação. Aqui no Brasil, fizemos ao contrário. Ao invés de investir na educação básica, fortalecer o ensino médio, para depois passar para o ensino superior, começamos ao contrário. Estamos expandindo o ensino superior sem criar uma base”, concluiu Pedrosa.

A pesquisa não considerou os chamados “cargos ocultos”, que dizem respeito aos profissionais de engenharia que assumem cargos de gestão, por exemplo.

FONTEhttp://www.inovacao.unicamp.br/

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